Radical Gestures
RADICAL GESTURES Primeiro Acto é o primeiro de dois actos que irei apresentar no Rialto6.
Reforço neste primeiro acto o meu manifesto contra um mundo acelerado de produção de imagens cativantes para consumo imediato, de apatia e de produção capitalista forçada. Faço-o exigindo tempo e atenção a quem se cruza com o meu trabalho, bem como uma constante releitura, incluindo a da minha própria obra, à qual retorno uma e outra vez, como uma atleta ou uma bailarina que repete o movimento até à exaustão, ou uma ensaísta que lê, relê e coloca em relação.
Contrariando a fórmula mercantilizada da produção artística, as obras continuam vivas e em constante transformação. Tal como as situações ‘mundanas’ que filmo e transfiguro de forma experimental e não-ficcional partindo da conexão com essa minha realidade, e que transformo em ficção do real – é a realidade das imagens, a maior ficção de todas, e o maior depoimento. Decido quando e como começa, difícil é saber quando e como acaba. Todas as decisões são críticas, sensíveis e políticas: filmar e editar são tomadas de posição, de um ponto de vista, de várias relações e de jogos de poder, de perceção, de atração, de sensação, e de pensamento. Nem palavras nem imagens são dados adquiridos.
Subitamente, tudo é uma dança. É um rigoroso exercício de montagem. É conflito, é sedução, é hipnose, tem tanto de revelação como de omissão, é corpo e é feito por um corpo.
Mas quando as luzes se apagam, da obra não resta objeto que ocupe espaço no mundo, só o dispositivo e a memória impregnada no corpo, mais uma vez, também ele dispositivo, que foi obrigado a parar, olhar, escutar, interpretar, sentir.
How radical is it?
RADICAL GESTURES Primeiro Acto re-visita parte da minha obra fílmica experimental, após mais de 20 anos de actividade artística. Este projecto contempla um conjunto de instalações vídeo que ensaio numa nova orquestração ou ‘coreografia sinfónica’ de peças pré-existentes.
Serão simultaneamente programados screenings da minha produção fílmica, ao longo das 8 semanas de exposição. Este programa que intitulo ARTIST’S CINEMA: A CINEMA OF ONE’S OWN – numa clara alusão a Virgínia Wolf e reivindicando a possibilidade de um cinema de artista só meu – percorre aspectos da minha obra que vão desde a imersão no museu, nas ‘cidades proibidas’ e nos arquivos pessoais ou descartados, com uma linguagem transdisciplinar que remete para o cinema, para o teatro, para a música, para a pintura, para a dança, para a arquitectura, para a fotografia, para a performance e para a antropologia. Em suma: o gesto e a pausa enquanto actos de resistência crítica e sensível. E uma pausa não é um intervalo. Os intervalos para os quais frequentemente remeto o espectador são na verdade acções que irrompem o absolutismo do silêncio na minha analogia entre imagem e som, que defendo como imagem som – duas faces da mesma moeda.
How radical is it?
Tatiana Macedo, Junho 2026
Tatiana Macedo