A Grande Bebedeira
A Grande Bebedeira
Enquanto bebia um rum muito mau, sem suspeitar da viagem que iria fazer dali a alguns minutos, tentei lembrar-me que viera para ouvir um discurso sobre o quê, sobre quê, sobre o poder das, como é que se dizia, tinha a palavra mesmo na ponta da língua, pus-me então à escuta, esqueci-me de abrir os olhos e, desgraça das desgraças, sem ter sequer tido tempo de apanhar o fio à meada, caíram-me em cima do estômago noventa quilos que me atiraram ao chão, me pediram desculpa, pediram desculpa ao chão, à minha garrafa, apresentaram desculpas a um banco, levantaram-se de um pulo com a prontidão de um sempre-em-pé — e era Amédée Gocourt, que me disse:
— Desculpa, meu velho, ando à procura da saída.
Era a última coisa que ele devia ter dito. Saíram logo da sombra três matulões que o agarraram pelo colarinho:
— Andas à procura de quê?
— Da saída, já disse.
— Caro Senhor, este lugar tem apenas três portas de saída — disse um dos matulões. — A loucura e a morte.
Contei pelos dedos e achei-me muito inteligente ao perguntar:
— E a terceira?
Tradutora: Lurdes Júdice
Editora: Dois Dias edições
ISBN: 9789899736283
Publication year: 2020
Format: Softcover
«A Grande Bebedeira, único romance de René Daumal publicado em vida do autor, começou a ser escrito em Nova Iorque, (…) em 1932-33.
(…) A par da reflexão subjectiva e do desejo de transformação interior, está presente ao longo de todo o relato uma visão da sociedade da época, a sua crítica, e o desejo de a ver transformar-se. Deste ponto de vista, é particularmente interessante o panorama que nos é dado do mundo cultural, científico, religioso e político.
(…) Trata-se de um romance muito centrado na realidade, mas onde esta é descrita de forma surrealista, num tom humorístico e paródico, com grande imaginação e um domínio total da língua e da linguagem, como é característico no estilo de Daumal.» – Lurdes Júdice (2016) in “Apresentação”, A Grande Bebedeira
«A Grande Bebedeira (…) talvez possa ser classificado como um cataclismo. Um livro, na verdade, inclassificável e misterioso como o seu autor, cuja obra é agora publicada em Portugal, pela primeira vez.» – Carlos Vaz Marques, «A Grande Bebedeira» em O Livro do Dia, TSF (03.04.2017)